terça-feira, 9 de novembro de 2010

Grande Festa Pentecostal

Círculo de Oração HEROÍNAS DA FÉ
A Igreja Evangélica Assembléia de Deus (CIADSETA) de Esperantina esteve em festa neste último fim de semana (05 06 e 07 de novembro).

O coral da igreja local, a juventude e o Círculo de Oração reuniram-se num grande evento marcado pela exposição da Palavra de Deus, avivamento, louvores, jograis e outras apresentações.

Estavam presentes o Conferencista Pr. João de Aquino (GO), preletor da festa, e a cantora Rose Santos (TO), além de cantores locais e das cidades vizinhas.

Marcaram presença caravanas de Primeiro Cocal (MA), Buriti do Tocantins, São Sebastião do Tocantins, além de lideranças eclesiásticas da região.

A Banda Nova Aliança, da Assembléia de Deus de Sampaio, também esteve presente, fazendo belas apresentações e demonstrando muita habilidade e perícia na arte do louvor.


Uma grande festa!

Coral da Igreja Local


domingo, 31 de outubro de 2010

Cristãos em Tudo

Fonte: Web
Estas últimas eleições nos propiciaram uma reflexão cristã ainda não experimentada em situações anteriores.

O fato de o segundo turno das eleições presidenciais nos apresentar dois candidatos praticamente semelhantes em muitos aspectos - sobretudo o econômico, onde as diferenças entre os modelos apresentados por parte de cada candidato são tão pequenas a ponto se tornarem imperceptíveis - terminou por direcionar o foco da escolha do candidato ideal para aspectos outrora negligenciados no processo político.

No final das contas os cristãos começaram a atentar para questões do tipo: "Esse candidato contradiz, em seu modo de governar, algum princípio cristão?"

Uma sociedade ateísta como a em que a nossa está se tornando considerará questões como a acima descrita como algo irrelevante no processo político. Muitos brasileiros disseram que a campanha estava fugindo das questões essenciais e esbarrando em questões insignificantes porque religiosas.

Sabemos, entretanto, que, em que pesem as motivações apaixonadas expressas por muitos eleitores que se beneficiarão de alguma forma com os resultados das eleições, no final das contas há grandes similaridades entre os dois candidatos. Ambos representam praticamente o mesmo pensamento econômico neoliberal, tornando-se qualquer deles mero continuador do modelo atual, que beneficia mais quem já é abastado e continua a abrandar a situações dos menos favorecidos com medidas tão paliativas quanto desumanizadoras.

Daí que as diferenças reais entre eles, caso existam, tenham de ser percebidas em outros aspectos ou características dos candidatos e de um eventual governo de cada um.

Foi o que houve, por exemplo, com a questão do aborto e da anunciada desconstrução da heteronormatividade. E nesse ponto sejamos sóbrios: nenhum dos candidatos é preferível ao outro, na medida em que nenhum dispõe de uma trajetória cristã confiável a ponto de se tornar agradável aos cristãos.

De qualquer modo a situação serviu para propiciar aos cristãos brasileiros uma reflexão sobre o que se esperar de eleitores cristãos, como também o que se deve esperar de políticos eleitos por cristãos.

A maioria de nós, cristãos, tem relegado a vida cristã para o interior dos templos e, na melhor das hipóteses, para o interior dos lares, considerando tudo o mais que acontece fora desses dois contextos imediatos como campos que precisam estar fora de nossa atuação enquanto cristãos.

Para Nancy Pearcy isso decorre do fato de não termos desenvolvido uma cosmovisão cristã. Nosso cristianismo, segundo a autora, "é restrito a uma área especializada de crença religiosa e devoção pessoal."*

Como consequência dessa visão deficiente da fé cristã temos abdicado de uma postura correta não só nos processos eleitorais, mas em muitos âmbitos de nossa vida.

Se a esse processo eleitoral vivenciado ultimamente devemos o mérito de suscitar essa reflexão, por outro lado, assistimos a uma baixaria, muitas vezes, no processo de politização dos crentes. É que a maioria quer participar das discussões ou da correria eleitoral nos mesmos moldes em que a maioria das pessoas o faz, de forma interesseira, corrupta e inconsequente.

Tudo indica que o nosso processo de reflexão apenas começou. Precisa amadurecer com muita responsabilidade e senso bíblico.

Mas já é um bom começo.

Francisco Sulo
Esperantina, 31 de outubro de 2010.

*PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural. 1ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 21.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DERROTA DO PR PEDRO LIMA NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES


Permitam-me, irmãos, algumas considerações sobre as razões de o deputado Pr Pedro Lima não ter sido reeleito neste último 3 de outubro. Podem não ser razões convincentes mas poderão ajudar-nos nas próximas eleições.
Arrolarei aqui, portanto, alguns motivos que teriam engendrado a não aceitação por parte dos milhares de evangélicos, sobretudo assembleianos, à pessoa do Pr Pedro Lima, na condição de candidato (não vou tocar nos aspectos de sua pessoa enquanto presidente da CIADSETA-TO, não obstante esses aspectos, acredito, também terem influenciado na campanha).
1.       Em primeiro lugar é fato sabido que o candidato Pr Pedro Lima evitou o contato com os crentes na campanha eleitoral. Limitou-se a tratar com os pastores, desconsiderando o peso que o contato corpo-a-corpo exerce no processo eleitoral. Este contato não deveria ser aquilo que, em última instância, deveria definir uma vitória eleitoral, mas dadas as características afetivas do ser humano é importante não prescindir do corpo-a-corpo. Esta é uma lição que precisa ser aprendida. Os pastores, por mais esforços que tenham demandado, não supriram diante dos crentes aquela presença do candidato que só ele mesmo poderia demonstrar. Nas reuniões de área, como é o caso da nossa (4ª área) o coordenador até que tentou, mas suas atitudes deixaram subentender um caráter mais de obrigação e de dever corporativos do que a solidariedade em torno de um projeto político das Assembléias de Deus no Tocantins.
 
2.        Em segundo lugar – e isso é verdadeiro para muitos eleitores, inclusive pra mim – não ficou bem nítida a idéia de projeto político da Convenção. O que se pretenderia com esse projeto? Seria a mera participação no poder, inclusive através de cargos de primeiro escalão, ou a moralização do poder estadual através de uma forte atuação parlamentar com base em fundamentos cristãos? Nunca soubemos (os cristãos de banco) o que motivou o voto do deputado Pr Pedro Lima na eleição indireta ao governador Carlos Gaguim no ano passado, nem o que teria motivado de fato a sua oscilação entre os dois candidatos a governador na última eleição. Temos fortes indícios de corrupção no governo e muitos crentes gostariam de saber qual deveria ser realmente a postura de um político cristão numa Assembléia Legislativa ou Congresso. O país está cheio de políticos cristãos pragmáticos que não estarão dispostos nunca a confrontar o mal que subjaz aos processos políticos, pois isso lhe traria desconfortos, oposições, perseguições. Aliás, dirá alguém, isso é coisa pra “vermelhos”, idealistas, imbecis. Eu, entretanto, digo que é coisa para cristãos genuínos. Acredito, portanto, que para as próximas eleições esse projeto político seja melhor esclarecido e que se defina qual orientação política lhe servirá de substrato doutrinário – se o pragmatismo fétido, responsável por muitos dos males sociais, ou o cristianismo bíblico e genuíno. Há que se considerar ainda que muitos cristãos não estarão dispostos a acompanhar qualquer projeto político caracterizado pelo pragmatismo.
3.       Em terceiro e último lugar podemos mencionar uma certa incoerência do discurso político-religioso da campanha. Durante muito tempo tentou-se consolidar a idéia de que crente tem que votar em crente. Não foi o que vimos na prática. Não nos foram apresentados candidatos crentes para deputado federal senão num tom secundário, pois pelo menos na 4ª área, predominaram os discursos em favor do Sr César Halum e Leomar Quintanilha. Se não houve entendimento com o Pr Adalberto Leite que procurassem outro. O Dr. Roberto Urbano nos foi apresentado, mas não com tanta veemência como foram apresentados os candidatos descrentes. Acredito que, em certo sentido, é até mais importante termos deputados federais do que estaduais, pois é no Congresso que são feitas as leis a que tanto nos referimos como prejudiciais ao meio evangélico. Nosso tipo de federação é diferente do americano, em que cada estado pode ter leis diferentes sobre muitos temas. No Brasil as leis são feitas em nível federal e não estadual, o que necessariamente nos deveria fazer refletir mais sobre a importância de congressistas cristãos. Acredito que a Convenção pecou feio nesse aspecto, mas é um tropeço a ser superado nas próximas eleições.
Acima de tudo precisamos de projetos bem definidos. O mundo jaz no maligno, diz a Escritura (1 Jo 5.19) e ações bem coordenadas serão bem mais eficazes contra o mal que impera na sociedade. Um outro ponto é que o projeto político precisa ser pautado pela verdade, isto é, pelo cristianismo bíblico e genuíno.
Acredito que muitos de nós estaremos disponíveis a participar desse projeto e ajudar o Tocantins e o Brasil a vencer as suas desgraças. Basta que haja decência e ordem.
Que o Senhor nos abençoe.
Francisco Sulo
Esperantina, 06 de outubro de 2010.

domingo, 23 de maio de 2010

O PODER DA PALAVRA

Os estudos recentes sobre o livro do projeto Jeremias trazidos pela Lição da Escola Dominical me trouxeram reflexões que considero relevantes sobre o papel daquele que tem a função ou dom ou o ministério da Palavra de Deus ou da palavra em geral.

Os céticos obviamente lançarão um olhar preconceituoso sobre os profetas bíblicos, dada a importância que os oráculos sempre tiveram na manutenção dos sistemas religiosos opressivos, manutenção esta atribuída ao discurso religioso escatológico e apocalíptico com que os líderes religiosos (profetas) impunham o terror, a violência e a opressão nas comunidades religiosas, além de também utilizarem o discurso religioso para manter a desigualdade social ou a segmentação da sociedade.

Evidentemente que a ocorrência de sistemas religiosos opressivos e de profetas ou sacerdotes que lhes servem de oráculos, implantando a desigualdade e o terror não justificam que devamos acreditar na inexistência atual ou anterior de sistemas ou sociedades religiosas verdadeiros, bem como na inexistência de profetas ou líderes espirituais verdadeiros, como não deduziremos a inexistência da serpente coral verdadeira a partir da existência da falsa coral. O falso não anula o verdadeiro, mas dizermos que algo é falso e verdadeiro ao mesmo tempo e no mesmo sentido seria uma contradição.[1]

É por isso que cremos na Escritura Sagrada e que a mesma foi escrita por homens de Deus que falaram inspirados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.21). Dentre estes estavam os profetas verdadeiros tais quais Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, dentre muitos outros. Evidência da honestidade e verdadeira espiritualidade desses homens foi o fato mesmo de sofrerem oposição em seu ministério, a ponto de terem sido maltratados, martirizados, perseguidos (cf Hb 11.36 e 37), afinal, falavam a palavra do Deus verdadeiro que naturalmente vai de encontro a toda sorte de impiedade cometida em qualquer sociedade humana.

A atividade de exercer a palavra, humana ou divina, entretanto, acarreta ao falante uma grande responsabilidade. Se os verdadeiros profetas bíblicos sofreram todo tipo de oposição em seu ministério é porque a palavra verdadeira, quando falada, causa inquietação e incômodo aos que vivem de forma impiedosa. Lembremo-nos dos efésios que enriqueciam às custas da fabricação de ídolos da deusa Diana (cf. At 19.23-41); dos homens que lucravam com a jovem que tinha espírito de adivinhação (cf. At 16.19), e ainda dos assassinos de Estêvão, o primeiro mártir cristão (cf. At 7).

Mesmo entre grandes homens não cristãos que defendiam ideais que consideravam verdadeiros percebemos a inquietação causada pelas palavras que falavam. Foi o caso de Sócrates, acusado impiedosamente por homens que viam em suas palavras uma possibilidade de transformação do status quo e que não retirou as suas palavras mesmo sob condenação.

Há custos para quem fala a palavra, sobretudo a Palavra de Deus. Por outro lado muitos benefícios efêmeros podem advir da palavra falada que agrada aos ouvintes, sobretudo os que estão em eminência.
Daí que muitos oradores estejam encabeçando fileiras de todo tipo de movimento que surge no mundo, sobretudo a grande rebelião suscitada por Satanás para pôr a humanidade contra Deus. Com os corações ensoberbecidos pelo conhecimento humano corrompido se auto-intitulam portadores da verdade em favor de correntes malévolas do pensamento humano, como é o caso do relativismo, do pragmatismo, do existencialismo ou, enfim, do ateísmo. São profetas que, a exemplo de Hananias, falam contra a verdade, predizem eventos que não podem acontecer e levam a humanidade à rebelião contra o Criador (cf. Jr 28).

Esses profetas falam por Satanás e sofrerão o juízo eterno.

Há ainda os profetas que querem agradar a dois senhores, como fez Balaão (cf. Nm cap. 22 e 23). O filho de Zipor queria a um só tempo falar a Palavra de Deus e receber presentes dos que queriam amaldiçoar o povo do Senhor. Quantos não estão querendo agradar a Deus e ao mesmo tempo falam palavras amenas para os ouvintes que não estão de acordo a ouvir o evangelho inteiro! Muitos profetas de Deus estão, em troca de presentes de todo o tipo, torcendo a Palavra de Deus para agradar a homens opressores, agentes públicos que, em vez da justiça, exercem a opressão e a impiedade, mas que têm sobre si a bênção do líder espiritual ou profeta que deles se beneficiam de qualquer forma.

Alguns reis de Israel mantinham profetas de plantão para situações em que o povo precisasse ser dobrado às exigências do monarca idólatra (cf. 1 Rs 18.19). É lamentável que muitos profetas de Deus da atualidade estejam a serviço de autoridades corruptas da nação, em troca de favores, cargos, prestígio, privilégios, e em prejuízo da verdade de Deus.

Não nos esqueçamos dos jovens obreiros, oradores influentes e de futuro promissor na obra de Deus, que se curvam aos caprichos de líderes espirituais corrompidos e corruptos, que não têm mais a visão de Deus; tais jovens trocam a honestidade e um viver na Palavra de Deus por acessos a postos mais elevados nas hierarquias eclesiásticas, com o fim de formar os esquadrões de profetas de plantão. Não devemos confundir obediência às autoridades civis ou eclesiásticas com deixar de lado as Palavras de Deus. Se não puder haver um equilíbrio é imperativo optarmos pela Palavra do Senhor (At 5.29). Atentemos para a triste sorte de Hananias! (cf Jr 28.16 e 17).

Lidar com a palavra, portanto, requer responsabilidades, compromissos. Ou falamos em favor da verdade ou da mentira e quando falamos movimentamos idéias, opiniões, servimos de guia aos outros, de mestres, implantamos a justiça ou a injustiça. Nada mais conveniente do que sermos julgados por todas as nossas palavras (cf Mt 12.37).

Que o Senhor nos dê palavras de profunda sabedoria para falarmos uns aos outros.

Francisco Sulo
Esperantina, 23 de maio de 2010.

[1] Cf. as explicações de Sproul sobre contradição em: R. C. Sproul. Defendendo sua Fé: Uma Introdução à Apologética. Rio de Janeiro: CPAD, 37-38.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

MUNDANISMO NA IGREJA

O discípulo amado, em sua primeira epístola, fez-nos admoestações importantes concernentes a não amarmos o mundo, pois há incompatibilidade, segundo ele, entre amarmos o mundo e sermos amados pelo Pai (1 Jo 2.15). O apóstolo ainda dirá, mais tarde, que o mundo jaz no maligno, mas que podemos vencê-lo pela fé (5.4, 19). Quando olhamos o texto da tentação de Jesus vemos que Satanás ofereceu coisas consideradas importantes e gloriosas do mundo para Jesus (Mt 4.8). Tiago, o irmão do Senhor, deixou bem claro para os irmãos da sua época e para toda a posteridade que a verdadeira religião consiste, dentre outras coisas, em guardarmo-nos isentos da corrupção do mundo (Tg 1.27). O Mestre, por sua vez, falou-nos que nada aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida. Mesmo assim, Jesus, o filho único de Deus, foi enviado para morrer pelo mundo (Jo 3. 16).

Pelo que podemos compreender dos textos acima, percebemos que a palavra “mundo” apresenta uma certa polissemia ao ser empregada na Escritura. O significado do termo é tão rico quanto o é a variedade de incoerências que percebemos no mesmo emprego da palavra atualmente no meio cristão.

Desde nossa infância na igreja percebemos nos sermões pastorais as admoestações relativas aos perigos que o mundo representa para a igreja e os exemplos mais comuns que nos são dados dizem respeito às vestimentas, cabelo, namoros, uso de aparelhos eletroeletrônicos, contato com descrentes, dentre outros. Quando encontramos no nosso meio cristãos que fogem aos padrões nesses aspectos relacionados nós os consideramos mundanizados e à medida que os anos se passam vemos a igreja mais mundanizada, considerada a mundanização nos aspectos em que apresentamos aqui. Neste contexto, vemos as igrejas num dilema: aceitar alguns aspectos da mundanização, considerados muitas vezes irrelevantes diante do corpo doutrinário central da Escritura ou manter a postura rígida contra o mundanismo na igreja – a primeira atitude poderá arrebanhar mais fiéis, inclusive aqueles que consideram o viver cristão por demais austero, e a segunda, por sua vez, apresenta o risco aparente de continuar estagnada no que diz respeito ao aumento do número de membros. Fica fácil saber qual é a posição que as igrejas assumem no seu dia-a-dia.

Cumpre-nos, entretanto, rever aquilo que compreendemos atualmente como mundanismo atentando mais acuradamente para o que a bíblia parece querer expressar quando utiliza o termo mundo. Não queremos aqui dizer que a Escritura não mantenha uma postura consolidada com respeito ao modo como os cristãos devem trajar-se ou usufruir dos avanços tecnológicos, mas o que parece ficar evidente para nós é que os textos bíblicos pretendem conduzir-nos não apenas àquilo que na verdade seria apenas conseqüência do mundanismo – o modo de vestir-se, por exemplo – , mas ao que realmente fundamenta o mundanismo. Donald Stamps diz-nos que a palavra “mundo”, do grego kosmos, refere-se na verdade ao

“vasto sistema de vida desta era, fomentado por Satanás”, o qual “emprega as idéias mundanas de moralidade, das filosofias, psicologia, desejos, governos, cultura, educação, ciência, arte, medicina, música, sistemas econômicos, diversões, comunicação de massa, esporte, agricultura, etc, para opor-se a Deus, ao seu povo, à sua Palavra e aos seus padrões de retidão”.[i]

Considerando o termo mundo desta forma, percebemos que nos encontramos muitas vezes combatendo mais as características visíveis, palpáveis ou secundárias do fenômeno mundanismo – como é o caso do vestir-se, da postura sexual, do cuidado com as tecnologias, etc – do que com os fundamentos do que realmente ameaça a Igreja em todos os tempos. Quando agimos assim simplesmente podamos uma árvore que continuará a brotar no seio da igreja, pois estamos atacando apenas as suas folhas ou galhos enquanto as suas raízes poderão estar fincadas continuamente no meio da igreja. Ademais, quando resolvermos atacar as raízes mesmas do mundanismo perceberemos que as suas conseqüências atuais para a igreja vão para muito além dos aspectos relativos à indumentária, uso de tecnologias ou comportamento sexual e veremos que nosso comportamento cristão em geral, o que inclui o aspecto ético-moral, político e social encontra-se profundamente comprometido. Se as coisas realmente são assim, então estamos todos mundanizados, com nossas luzes embaixo do alqueire e na condição de sal sem sabor ou sem poder de preservação (Mt 5. 13-15).

É importante ainda, no intuito de reforçarmos o que temos dito até aqui, e aprofundando ainda mais esta concepção de mundanismo, mencionarmos a compreensão de John Stott em relação ao que significa mundanismo a partir da oposição constatada por ele entre intelecto e emoção, verificada efetivamente entre os crentes. Aos que negam qualquer possibilidade de se permitir a ingerência do intelecto nas coisas espirituais, pautando-se apenas por suas experiências espirituais elevadas sempre ao status de verdade última, inclusive a expensas da análise bíblica, Stott admoesta:

“Sinto muito ter de dizer que eles estão se auto-proclamando intensamente, como sendo crentes mundanos. Pois ‘mundanismo’ não é apenas uma questão (como fui ensinado a acreditar) de fumar, beber e dançar, nem tampouco aquela velha questão sobre embelezar-se, ir a cinemas, usar minissaias, mas o espírito do século. Se absorvermos sem qualquer exame os caprichos do mundo (neste caso, o existencialismo), sem que primeiro sujeitemos isto a uma rigorosa avaliação bíblica, já nos tornamos crentes mundanos.”[ii]

A análise do autor e sua definição de mundanismo, a partir de um exemplo prático, vêm fazer coro com o que apresentamos mais acima como sendo de suma importância para a igreja dos últimos dias – atacar o mundanismo em suas raízes para reduzir os seus efeitos no seio da igreja.

O exemplo analisado por Stott citado aqui envolve a polarização entre intelecto e emoção na vida de fé, mas o autor tratou de mais polarizações nesta sua obra, enfatizando sempre o modo como muitas vezes sacrificamos até mesmo a verdade bíblica em favor de uma noção culturalmente instituída – isto é, priorizamos muitas vezes aquilo que é do mundo em prejuízo daquilo que está claro na Escritura. É o caso, por exemplo, da polarização entre Evangelismo e Ação Social. Muitos cristãos consideram que não é também função da igreja melhorar a sociedade através de ações concretas, pois isso seria mundanismo. Stott, entretanto, cita Sir Frederick Catherwood, que assevera: “Procurar melhorar a sociedade não é mundanismo, mas amor. Lavar aos mãos da sociedade não é amor, mas mundanismo.”[iii]

Isso necessariamente deverá conduzir-nos a uma análise de todos os aspectos da vida dos cristãos da atualidade, pois através dela perceberemos em que faceta da nossa vida estamos sendo mundanos e em qual não estamos sendo. Para começar perguntemo-nos: Como temos agido no diz respeito às nossas responsabilidades sociais? Temos amado o nosso próximo e procurado ativamente o seu bem ou consideramos que isso é humanismo próprio de idealistas da sociedade? Sobre este ponto Stott diz-nos que

“um cristianismo que usaria a preocupação vertical [o ato da salvação de Deus na vida dos indivíduos] como um meio para escapar de sua responsabilidade pela vida comum do homem é uma negação do amor de Deus pelo mundo, manifestado em Cristo.”

Diz-nos ainda que “deve tornar-se claro que membros de igreja que de fato negam suas responsabilidades com o necessitado em qualquer parte do mundo são tão culpados de heresia quanto todos os que negam este ou aquele artigo de Fé”.[iv]

Se quisermos, portanto, não sermos mundanos neste aspecto de nossa vida de fé precisamos assumir nossas responsabilidades sociais, reconhecendo que “o problema jaz em encontrar o equilíbrio entre ‘proteger nossos próprios interesses’ e ter preocupação adequada pelo próximo, onde quer que ele esteja.”[v]

Perguntemos, em seguida: Como temos agido enquanto agentes políticos? Temos levado em conta a Escritura, através da qual Deus estabelece como fim dos governos o bem da sociedade (Rm 13.4a), ou temos acatado as práticas mundanas de enriquecimento próprio e favorecimento de grupos em prejuízo dos que mais precisam das ações do governo?

Também neste aspecto, se não quisermos, na condição de agentes políticos, andar conforme o mundo, precisamos olhar para a Escritura e não para o que o mundo ensina. Um exemplo clássico de mundanismo na política foi o pragmatismo de Jeroboão I. Mesmo tendo a promessa de Deus de que governaria sobre dez tribos, este rei receou no seu coração e, tomando conselho (fora da Escritura) fez dois bezerros de ouro para que Israel os adorasse nos dois extremos do reino (Dã e Berseba), sem que precisassem ir a Jerusalém adorar o Deus Verdadeiro (1 Rs 11.31;12.26-33). E para os que consideram que as ações políticas estão fora da esfera da religião e da verdade e, portanto, do pecado, foi registrado na Escritura que “este feito se tornou em pecado” (v. 30).

E na área moral, será que andamos conforme a ortodoxia bíblica ou também estamos sendo mundanos? Será que ainda sabemos a diferença entre o bem e o mal, o falso e o verdadeiro, ou estamos considerando que a verdade é relativa, à maneira dos relativistas? Estamos regulando nossos comportamentos sexuais pautados na Escritura ou na moral mundana? Será que o nosso modo de vestir-se espelha a visão bíblica de sexualidade ou a visão mundana? E sobre o casamento? E nossas noções de justiça, sinceridade, honestidade, retidão e pureza? Ainda as consideramos à luz dos textos bíblicos ou já foram substituídas pelas noções relativistas?

Esta pergunta nos suscita uma seguinte, no campo epistemológico: ainda cremos numa Verdade Absoluta acessível pela revelação de Deus? Ou será que, bem no fundo de nosso ser, achamos que o cristianismo é uma mera manifestação cultural de um grupo milenar?

A título de conclusão, podemos dizer que estas questões, evidentemente, podem ser aplicadas a muitas outras situações de nossa vida, aqui não mencionadas, mas fica o convite para as indagações à luz da verdade bíblica: Em que aspecto de minha vida estou vivendo ou agindo conforme o mundo e não segundo Cristo? Tais indagações certamente nos ajudarão a compreender admoestações bíblicas como as de João, de que não devemos amar o mundo, e expressões do tipo “o mundo jaz no maligno”, pois o príncipe deste século é o diabo, o pai da mentira (Jo 8.44). Sob sua influência é que foram e são elaboradas as filosofias e pensamentos que em geral fundamentam a base da existência humana em todos os aspectos de suas vidas. Para o cristão é imperativo destruir essas fortalezas através do resgate do modo de viver humano em geral, submetendo-o aos modelos bíblicos. Nossa estratégia não deve ser apenas defendermo-nos, mas atacarmos. Não com armas materiais, mas com as armas espirituais, tendo o cuidado de levarmos cativo todo entendimento a Cristo (2 Co 10.5) e não nos deixando sermos seduzidos pelo mundo.

Francisco Sulo

Esperantina, 15 de fevereiro de 2010.




[i] Donald STAMPS. Bíblia de Estudo Pentecostal, Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 1957.

[ii] John R. W. STOTT. Cristianismo Equilibrado. 3ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 23 (grifos nossos).

[iii] Idem, Ibidem, p. 57.

[iv] Ibidem, p. 63, 64.

[v] Dennis MCNUTT. Política para Cristãos (e outros pecadores). In: Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, p. 438.

sábado, 10 de outubro de 2009

O Altruísmo de Jó (Este texto é parte integrante do meu pretenso livro "Altruísmo Bíblico", em fase de finalização)


“Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo... (...) Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva; ou sozinho comi o meu bocado, e o órfão não comeu dele (...); se a alguém vi perecer por falta de veste e, ao necessitado, por não ter coberta; (...); se eu levantei a mão contra o órfão, porque na porta via a minha ajuda, então caia do ombro a minha espádua, e quebre-se o meu braço desde o osso. Porque o castigo de Deus era para mim um assombro, e eu não podia suportar a sua grandeza.” [1]
(Jó 31.13-23)
Qualquer estudo que se empreenda sobre o livro de Jó não deve deixar de levar em conta o fato de que o patriarca de Uz não era apenas um homem de fé, completamente devotado a Deus, mas também um homem que vivia a verdade bíblica em todos os aspectos de sua vida, inclusive no que diz respeito ao seu altruísmo.
Esta faceta da vida de Jó deve estar ainda mais evidente em se tratando de um estudo que pretende contrapor um modelo bíblico genuíno ao modelo de cristão atual, maculado pelos pensamentos e práticas da pós-modernidade. Não será equívoco afirmar que o individualismo histórico conseguiu impregnar-se na cristandade atual, modelando uma espécie de fiel que aprendeu a obedecer apenas a ao primeiro e maior dos grandes mandamentos da lei, qual seja, “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.37). Para a infelicidade de muitos, porém, a Escritura declara que é inválida a tentativa de se manter um relacionamento vertical na fé ao mesmo tempo em que se rejeita toda e qualquer forma de relacionamento horizontal com os nossos semelhantes (Mt 25 34.45). [2]
Esta coletânea de textos, portanto, demonstrará a partir do exemplo de Jó, que o modelo de cristão individualista e egocêntrico da época atual precisa ser transformado num modelo genuinamente bíblico, capaz de viver o evangelho inteiro, inclusive nos aspectos que dizem respeito ao nosso relacionamento com aqueles que, assim como nós, foram feitos à imagem e semelhança do Criador.
É importante de início observar-se que o altruísmo não era uma atitude característica apenas de Jó, conforme podemos aprender do seu livro, embora apenas ele o tenha sido em perfeita conformidade com a Escritura. Os amigos de Jó também demonstraram amor e compaixão pelo próximo ao aproximarem-se de dele para compartilhar a dor do patriarca de Uz. Diz-nos a Palavra de Deus que Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita,
“concertaram juntamente virem condoer-se dele e consolá-lo. E, levantando de longe os olhos e não o conhecendo, levantaram a voz e choraram; e rasgando cada um o seu manto, sobre a cabeça lançaram pó ao ar. E se assentaram juntamente com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande” (Jó 2.11,13).
Verdade é que por desconhecerem a Palavra do Senhor, ao mesmo tempo em que prestavam assistência à Jó acusavam-no de infiel a Deus, não medindo a dureza das suas palavras a fim de levarem Jó ao “arrependimento” (Jó 4.7; 8.4-6; 11.6).
O fato é que mesmo a compaixão manifestada insipientemente pelos amigos de Jó não é percebida com muita freqüência nos dias de hoje. Que se dirá do amor pelos que nos ofendem seja no trabalho, em casa, na rua ou até mesmo na igreja?
A época em que Jó viveu é freqüentemente mencionada como a era patriarcal. Donald Stamps, editor da Bíblia de Estudo Pentecostal, alista uma série de fatos, dentre eles a ausência de qualquer menção à lei mosaica, que “indicam que Jó viveu por volta dos tempos de Abraão (2000 a.C) ou até antes”.[3] Era, sobretudo, uma época em que a família patriarcal era a unidade social básica, na qual o pai era também o sacerdote responsável pelas atividades religiosas na sua família.[4] Conquanto não haja menção de leis locais que regulassem a vida da região, as atitudes de Jó para com os seus semelhantes demonstram uma séria representação de um perfeito sistema legal constituído. E não se tratava de um sistema legal humano, mas a própria lei de Deus escrita no coração do seu servo; aquela que existe perpetuamente, independentemente de sua representação escrita na posterior legislação mosaica. Nada mais coerente do que compreender, à maneira de Jó, que ser sábio é temer a Deus (Jó 28.28). Ao temer a Deus, o patriarca de Uz compreendia a vontade do Senhor, embora não houvesse nenhum sistema legal escrito pelo qual Jó viesse a se pautar, sobretudo em relação ao próximo. Jó, sem o auxílio de lei escrita, amava a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.
O tratamento de Jó para com os seus semelhantes, sobretudo aqueles em condições desfavoráveis, pode ser observado no capítulo 29, nos versículos 12-17, onde está escrito:
“Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva. Cobria-me de justiça, e ela me servia de veste; como manto e diadema era o meu juízo. Eu era os olhos do cego e os pés do coxo; dos necessitados era pai e as causas de que não tinha conhecimento inquiria com diligência; e quebrava os queixais do perverso e dos seus dentes tirava a presa.”
Esta atitude de Jó para com o seu próximo pode ser classificada em duas espécies de justiça: uma que pode ser considerada mais direta e pessoal, no sentido de que conta apenas com a vontade daquele que pratica a justiça, sem que se defronte com obstáculos externos, e uma outra, que para ser exercida precisa que haja um certo confrontamento com pessoas ou circunstâncias que impedem o exercício da justiça para com o que se encontra em situação desfavorável. Analisemos estas duas espécies de justiça.
A primeira espécie está identificada nas atitudes de, pessoal e diretamente, livrar o miserável, socorrer o órfão e a viúva, servir de guia ao cego e locomover os coxos em suas necessidades, e manter cuidado paternal pelos necessitados. São atitudes que não envolvem agentes externos na condição de terceiros, mas apenas aquele que precisa do auxílio e o que o pode prestar. Muitas vezes a necessidade de auxílio se evidencia pelo clamor feito pelo necessitado, conforme Jó 29.12. No caso do miserável, clamor por pão, abrigo ou auxílio nas enfermidades; a esses cuidados, nos casos do órfão e da viúva, soma-se uma ajuda direcionada a suprir a falta da família; no caso do cego e do coxo, soma-se ainda a ajuda na locomoção e auxílio para atividades que não podem exercer sozinhos; os demais necessitados podem clamar por uma infinidade de benefícios ausentes em sua vida.[5]
A outra espécie de justiça está identificada nas atitudes de Jó de, diante de terceiros, inquirir com diligência sobre as causas de determinadas pessoas, das quais o próprio Jó não tinha conhecimento e arrebatar a presa das garras do perverso.
Em relação a este ponto em particular é necessário que se compreenda que Jó mantinha o entendimento de que o ser humano é portador de vários direitos naturais, embora nenhum demagogo liberal os houvesse ainda apresentado. Jó fala de direitos dos servos (Jó 31.13) e acima de tudo reconhecia a igualdade entre todos os seres humanos, algo que posteriormente os liberais chamariam de isonomia, isto é, o princípio que considera todos iguais perante a lei. Era certamente em relação a esses direitos que Jó empreendia investigações, verificando o seu cumprimento na vida do seu próximo. No caso de opressões verificadas, Jó empreendia o livramento do oprimido. Não devemos entender aqui atitudes exercidas pelo uso de armas ou violência, mas simples exercício da justiça social ao alcance do servo de Deus. Para Jó isto não significava mera satisfação a um suposto ego seu humanista. Era acima de tudo uma compreensão de que agir de modo diferente seria pecado e Jó temia o castigo de Deus (Jó 31.23).
Essas verdades acerca do caráter do patriarca Jó contrastam com aquilo que tem sido a essência do modo de viver contemporâneo, pautado em ideais de consumo e isolamento, vale dizer, valores individualistas. E é claramente perceptível que a igreja do Senhor não está imune a tais valores, motivo pelo qual as atitudes de Jó contrastam tanto com a nossa vivência de cristãos hoje.
Cabe ainda observar que esta descrição de Jó de sua integridade num momento de questionamento interior sobre quais seriam as suas falhas não são meras alegações de sua condição espiritual diante de Deus. Ao fim do grande sofrimento de Jó, Deus dirá que, diferentemente dos seus amigos, o patriarca de Uz foi o único que falou o que era reto a respeito de Deus (Jó 42.8), sendo que aqueles, por terem se equivocado em suas palavras, cometeram loucura que careceu de expiação através de holocaustos (v.42). Sempre cometemos loucura quando prescindimos da Palavra de Deus em qualquer aspecto de nossa vida diária. Lembremo-nos disso.


[1] Este texto faz parte de uma coletânea que discute, desde as situações práticas vivenciadas por Jó até a atualidade, as discrepâncias existentes entre uma prática do altruísmo genuinamente bíblica, como é o caso dos exemplos vivenciados por Jó, e um atual modelo cristão de altruísmo permeado pelos pensamentos e práticas da pós-modernidade. O próximo texto a ser postado neste blog dará continuidade ao estudo do altruísmo bíblico a partir de uma análise feita sobre o assunto na Lei do Antigo Testamento.
[2] Dennis MCNUTT, em Política para Cristãos (e outros pecadores), in: Michael PALMER. (Ed.) Panorama do Pensamento Cristão. 1ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 430 e 431, afirma que os cristãos agem em relação aos dois grandes mandamentos baseados no fato de serem ou teologicamente conservadores ou liberais. Segundo o autor “os conservadores teológicos – evangélicos fundamentalistas, pentecostais e carismáticos – parecem levar o primeiro mandamento mais a sério do que o segundo”, enquanto “os teológicos liberais são inclinados a ouvir a chamada da Bíblia para a justiça social, mas não tendem a preocupar-se demais com a devoção pessoal.” Para McNutt “Uma vida cristã plena tem de reconhecer que tanto nosso relacionamento com Deus quanto nosso relacionamento com os outros, pessoal e politicamente, são partes essenciais da vida cristã” (p. 431).
[3] Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, pág. 767.
[4] Idem, ibidem, p.767.
[5] É evidente que em todos estes casos o ajudador também precisa prestar um auxílio espiritual ao seu próximo, sobretudo pelo fato de que muitas vezes a deficiência de algum bem chega a ocasionar fraqueza espiritual, isto é, desânimo, incredulidade e desespero, decorrentes de uma fé que foi abalada pelo sofrimento experimentado. No caso de infiéis, deve-se pregar a Cristo, o qual consolará o sofredor.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

OS CRISTÃOS E A POLÍTICA

Temos presenciado nos últimos anos uma entrada relativamente considerável de evangélicos na política seja nacional estadual ou municipal. Enquanto para alguns cristãos[1], participar das instâncias de poder na Terra poderia parecer uma materialização forçada de algumas promessas divinas, para alguns outros, ter acesso a essas instância é um imperativo atual, considerando-se que todos os demais grupos estão representados nas câmaras municipais, assembléias ou mesmo no congresso federal. Há ainda aqueles que relacionam diretamente a política ao mal, como se essa esfera de ação humana fosse algo totalmente pertencente a Satanás, sendo impossível ao cristão inserir-se na política sem perder a sua salvação. Um último grupo de pessoas considera que a política é para o cristão uma forma bem mais ampliada de se fazer o bem e a justiça no mundo.[2] Mas afinal, como os cristãos devem considerar a política?
 
Em primeiro lugar é importante aceitarmos que o fato de a Bíblia dizer que “a nossa cidade está nos céus” (Fp 3.20) não justifica que abdiquemos de nossa cidadania terrena, embora nesse ponto realmente pequem aqueles que vêem na detenção de poderes terrenos a materialização da promessa divina de herdar a terra (Mt 5.5; Sl 37.9). Ainda que o Senhor nos conceda o acesso a poderes terrenos devemos considerar a transitoriedade desse poder e os males relacionados a ele e, assim como Paulo, acreditar realmente que “a nossa cidade está nos céus” (Fp. 3.20).

 
Em relação ao segundo grupo de cristãos, que considera a necessidade da representação política num país marcadamente plural, como é o caso do Brasil, podemos afirmar que esses cristãos realmente têm razão quando afirmam isso. Precisamos de cristãos que defendam leis justas e que combatam leis que contrariem a vontade de Deus em todas as esferas decisórias de poder político. A questão é se realmente a intenção dos cristãos em se fazerem representar está fundamentada na necessidade de leis justas e do exercício da justiça social num país marcadamente desigual como o Brasil.

 
Ainda sobre os que consideram a política como uma esfera de poder exclusivamente sob o domínio de Satanás, não cabendo ao cristão inserir-se nela, afirmo que tal visão é absurda e só contribui para a desgraça do mundo. Contrariamente a essa postura a Escritura nos garante que “quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas, quando o ímpio domina, o povo suspira” (Pv. 29.2; 11.10; 28.12). Devemos entender aqui que a Bíblia se refere ao governo dos justos em contraposição ao governo dos ímpios. A última posição – que afirma que a política é uma forma bem mais ampliada de se amar o próximo – será considerado mais adiante no decorrer do texto.

 
Cumpre assinalarmos, neste momento, que a mera chegada dos cristãos ao poder talvez ou certamente não mudaria em muito as coisas. Nancey Pearcey, ao mesmo tempo em que fala da crescente politização dos cristãos no seu país, ocorrida nos últimos anos, lamenta o fato de que os resultados não são muito satisfatórios, pois segundo ela “a política tende a espelhar a cultura e não o contrário”.[3] O que a escritora quer dizer é que muito do que acontece hoje no mundo, inclusive no meio político, não é resultado do fato de os governantes serem ou não cristãos. E é exatamente neste momento em que devemos questionar sobre os motivos que estão levando nossos irmãos em Cristo a concorrerem a cargos públicos. Seria apenas o desejo do poder em si mesmo? Ou estaríamos apenas inquietos pelo fato de que somente os outros grupos estariam tendo acesso às instâncias de poder? Por acaso estamos enciumados por não podermos participar da indicação, ao lado dos demais grupos, de cargos de alto ou segundo escalão ou por não estarmos tendo participação na distribuição ou interceptação de verbas públicas? Estaríamos meramente almejando os postos de coronéis regionais ocupados, muitas vezes, apenas por católicos, maçônicos ou outros grupos-não cristãos? Essas questões são pertinentes porque, conforme mencionou a autora, a política tem o modo de ser ditado pela cultura. Noutras palavras, as regras políticas em sua quase totalidade destoam dos princípios bíblicos de amor, justiça, honestidade e humanização dos povos, ou seja, não é a Escritura o substrato teórico e prático do mundo da política, mas o são exatamente os princípios filosóficos ateístas, dentre os quais podemos destacar o pragmatismo, o qual ensina que não há um “certo” ou um “errado” senão do ponto de vista prático.[4] É neste sentido que Pearcey afirma que a politização dos cristãos nos últimos anos fracassou. Isto é, os cristãos lutam pelo poder mas utilizam as mesmas armas para tanto, e, uma vez no poder, assimilam a mesma cultura política fundamentada em pressupostos antibíblicos que não contribuem para a anunciação do evangelho, muito menos para o bem da sociedade.

 
A partir da reflexão feita sobre o texto de Pearcey percebemos que precisamos de política, de fazer política e estarmos inseridos na política. O que deve mudar, entretanto, é a nossa visão sobre a política. Não devemos vê-la apenas enquanto espaço de disputas com os não-cristãos ou não-evangélicos, muito menos utilizá-la como forma de enriquecimento próprio ou de favorecimento de alguns grupos em detrimento de outros. Devemos utilizá-la para implantar a justiça entre os homens, anunciando, assim o evangelho de Cristo e, conseqüentemente, transformar a cultura. Sob esta ótica percebemos que não é nem mesmo necessário concorrer a cargos eletivos para cumprir com estes objetivos, embora ascender a postos políticos em muito contribua para tanto.

 
Utilizemos três exemplos para ratificar a idéia de que é possível fazer política justa tanto no exercício de cargo político como fora dele. Comecemos por Daniel. O profeta demonstrou que no exercício de um alto cargo político é possível anunciar o reino de Deus. Mas para isso ele não precisou de atitudes desonestas para ser escolhido para o cargo, nem participar da mesa idólatra e corrupta dos outros poderosos para se manter no poder (cf. Dn 2.48; 6.1 e 2; cap. 5). Agora perguntemo-nos: que métodos de campanha nossos candidatos cristãos utilizam? Estariam eles, a exemplo de como fazem os não-cristãos, por ocasião da realização de campanhas eleitorais, burlando as leis e comprando votos, fazendo promessas desonestas e enganadoras com o fim de arregimentar votos de pessoas simples e necessitadas de políticas públicas justas? E uma vez no poder, será que exercem a justiça, embora o fruto de tal virtude ou princípio não lhe agrade ou ameace sua permanência? Ou será que fazem parte de conluios que não têm em vista outro objetivo senão o enriquecimento próprio em detrimento do pão do pobre e do necessitado? Será que estão comprando o pobre por dinheiro e os necessitados por um par de sapatos (Am 8.6)? Estariam decretando leis injustas “para prejudicarem os pobres em juízo, e para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo...?” (Is 10.1 e 2). Infelizmente esse quadro é bem conhecido de nós, evangélicos, pois muitos dos nossos irmãos agem assim tanto no período de campanha eleitoral como depois de chegarem ao poder. E uma outra pergunta seria: é certo, do ponto de vista bíblico agir assim? Certamente que não. Mas os que assim fazem dirão: é possível chegar no poder e lá se manter de outra forma? Digamos que se Deus concedeu a José e a Daniel chegarem lá vivendo piamente e lá permanecerem sob a mesma piedade Ele nos ajudará a chegarmos lá também, se piamente agirmos nas campanhas eleitorais e no exercício do mandato.

 
Vejamos agora exemplos de como podemos ser políticos ou fazer política mesmo sem dispor de um cargo público. Tomemos o exemplo de Jó ou o exemplo dos primeiros cristãos, que viviam sob o cruel império romano dos primeiros séculos da era cristã. A Bíblia não diz que Jó dispunha de cargos políticos. Mas diz que ele “livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse” (Jó 29. 12). Diz ainda que Jó cobria-se de justiça e ela lhe era por veste (v. 14); que ele “era o olho do cego e os pés do coxo; dos necessitados era pai e as causas de que não tinha conhecimento inquiria com diligência; e quebrava os queixais do perverso e dos seus dentes tirava a presa” (v. 15-17). Ora, e isso não é fazer política, se considerarmos que agir politicamente envolve inclusive o embate com os poderes públicos na busca de justiça social para os pobres e necessitados? É impressionante como nunca somos ensinados nas igrejas a agirmos da mesma maneira que Jó. Observemos novamente o seu exemplo. Jó não estava apenas envolvido em atitudes de auxílio àqueles que por condições físicas ou sociais encontravam-se em situações difíceis. O patriarca de Uz algumas vezes precisava enfrentar os poderosos para poder resolver certas causas dos menos favorecidos. Para tanto, primeiramente Jó tomava conhecimento das situações opressivas para, em seguida, procurar resolvê-las. Dennis McNutt nos adverte que “o evangelho nos exige uma espiritualidade pessoal e pública”.[5] E na condição de “cristãos preocupados com a esfera pública, não devemos nos conformar só com atos individuais de decência e caridade para com o próximo”.[6] Precisamos, pois, mesmo na condição de cidadãos comuns, lutar por melhores condições coletivas de vida.

 
Mas vejamos ainda algo sobre os primeiros cristãos, conforme adiantamos acima. Em primeiro lugar lembremo-nos de que o modo de vida dos cristãos primitivos era eminentemente comunitário (cf. At. 2.42-47). Relutamos em aceitar isso como válido para os nossos dias, caracterizados que são pelo clima de individualismo que desde o surgimento da era moderna nos despiu de qualquer vestígio de comunitarismo. Entretanto esta atitude comunitária e altruísta viria a impressionar o império romano fazendo-o, inclusive, a também praticar o bem. Eduardo HOORNAERT, historiador, chega mesmo a, equivocadamente, atribuir a sobrevivência do cristianismo em pleno império romano ao seu modo de viver comunitário e altruísta. Sabemos, entretanto, que a sobrevivência do cristianismo é um projeto de Deus, embora isto não nos exima de viver de forma genuinamente cristã, isto é, amando em palavras, em atos e em verdade. O historiador, pois, observa que, naquela época os cristãos se davam mutuamente apoio moral, por ocasião de interrogatórios diante das autoridades romanas, visitavam os presos, prestavam assistência psicológica aos desesperados, alimentavam órfãos e viúvas, eram hospedeiros, criavam caixas de ajuda para momentos de urgência. Segundo ainda o autor, estas práticas continuaram ainda nos séculos subseqüentes ao século III, a ponto de o imperador Juliano, que tentou reprimir o cristianismo num império já oficialmente cristianizado, recomendar as autoridades locais que criassem “centros de assistência social e hospedagem como um dique contra a avassaladora penetração do cristianismo em meios populares”.[7]

 
Os exemplos dos primeiros cristãos, alistados acima, demonstram atitudes de altruísmo que transcendem o nível das ações individuais. Eles agiam em prol não de indivíduos isolados, mas em favor das comunidades inteiras, beneficiando, inclusive os próprios romanos. Agir coletivamente ou tendo em vista o bem coletivo é agir politicamente. Podemos, portanto, ser políticos e fazer política mesmo sem exercermos cargos políticos. O impressionante é que quando os cristãos fazem o bem os não-cristãos também são impulsionados a fazê-lo, embora muitas vezes o façam com outras intenções, como é o caso referido acima do imperador Juliano. Podemos inferir desses exemplos, pois, que quando agimos de forma cristã na política o evangelho é anunciado e é produzida uma contracultura cristã.

 
Agora nos questionemos: como é que temos agido em nossas comunidades? Temos considerado os problemas sociais como algo de nossa responsabilidade ou acreditamos que o chamado de Cristo não tem nada a ver com isso? Pensemos agora na política partidária propriamente dita: de que forma temos considerado a responsabilidade do voto? Minhas escolhas têm levado em consideração o bem da coletividade ou tenho buscado os meus próprios interesses? E finalmente: tenho evangelizado alguém através do modo como considero as minhas responsabilidades diante dos problemas da comunidade? Minhas atitudes têm feito as pessoas blasfemarem de Cristo ou elas têm sido impulsionadas a fazerem o bem e louvar a Deus?

 
É... política é muito mais do que tudo aquilo que temos considerado até aqui. Então, a título de conclusão é melhor aprendermos que ser cristão é seguir a Cristo em qualquer situação ou aspecto da vida cotidiana, inclusive na política. Precisamos abdicar da falsa crença de que “o cristianismo é restrito a uma área especializada de crença religiosa e devoção pessoal” [8] e começarmos a agir cristãmente diante do mundo. E a propósito do tema, é melhor começarmos pela política.

 
Francisco Sulo
Esperantina, 30 de setembro de 2009.
[1] O termo cristão, utilizado por mim neste texto, refere-se especificamente à nação evangélica.
[2] Cf. Dennis MCNUTT. Política para Cristãos (e outros pecadores). In: Michael PALMER (ed.). Panorama do Pensamento Cristão. 1ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
[3] Nancy PEARCEY. Verdade Absoluta. 1ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 20.
[4] Cf. William JAMES. Pragmatismo. São Paulo: Martin Claret, 2005. O grande pragmatista americano, William James, ao tratar da sua doutrina, disse: “Estou bem certo de quão singular deve parecer a alguns dos presentes escutar-me dizer que uma idéia é verdadeira na medida em que acreditar nela é proveitoso para nossas vidas” (p. 38).
[5] Dennis MCNUTT. Ibidem, p. 432.
[6] Idem, ibidem, p. 433.
[7] Cf. Eduardo HOORNAERT. As Comunidades Cristãs dos Primeiros séculos. in: Jaime PINSKY e Carla B. PINSKY. História da Cidadania. São Paulo: Cortez, p. 90 e 92.
[8] Nancy PEARCEY. Ibidem, p. 21.